Uma força-tarefa coordenada por instituições ambientais e de pesquisa resultou no resgate, remanejamento e início do processo de soltura de muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), uma das espécies mais ameaçadas de extinção do país. A ação foi realizada entre os dias 13 e 24/3, no município de Peçanha, com a transferência dos animais para a região do Parque Estadual do Ibitipoca, na Zona da Mata mineira.
Ao todo, quatro indivíduos — duas fêmeas e dois machos — foram capturados e já se encontram em processo de aclimatação no Ibiti Projeto, etapa fundamental para adaptação ao novo ambiente. Esse período permite que os animais se ajustem às novas condições ambientais, alimentares e sociais, reduzindo riscos e aumentando as chances de sucesso na soltura definitiva. A expectativa é que, após essa fase, os primatas sejam reintegrados ao ambiente natural em áreas próximas ao parque, onde há fragmentos preservados de Mata Atlântica, favorecendo a sobrevivência e a reprodução da espécie.
A iniciativa reuniu o Instituto Estadual de Florestas (IEF) , o Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Ibiti Projeto, além do poder público municipal, órgãos colegiados e pesquisadores especializados em conservação da biodiversidade. A operação também contou com a atuação de equipes técnicas multidisciplinares, incluindo biólogos e médicos veterinários, responsáveis pelo monitoramento e bem-estar dos animais durante todas as etapas do processo.
A ação integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-Coleira e teve caráter emergencial. O objetivo foi resgatar indivíduos isolados da espécie, classificada como criticamente em perigo de extinção, conforme a Portaria MMA nº 148/2022, e promover a recomposição populacional em áreas ambientalmente mais adequadas.
De acordo com o professor da UFV, Fabiano Rodrigues de Melo, a intervenção se tornou necessária diante da redução expressiva da população na área de origem. “Nos últimos anos, observamos um decréscimo populacional que representou cerca de 50% dos indivíduos da espécie na região, o que tornou urgente essa ação de manejo”, explicou. Segundo ele, a fragmentação do habitat e o isolamento dos grupos comprometem a viabilidade genética da espécie, tornando essencial a adoção de estratégias de conservação ativa, como a translocação.
A analista ambiental do IEF e representante do estado no plano nacional de conservação, Ariane Cristine Araújo Goulart, destacou que a iniciativa é estratégica para a biodiversidade mineira. “A translocação contribui para ampliar as chances de sobrevivência dos indivíduos e fortalecer a população da espécie, colaborando diretamente para a manutenção da biodiversidade da Mata Atlântica no estado”, afirmou.
Para o diretor-presidente do Muriqui Instituto de Biodiversidade, Marcello Nery, a ação tem impacto direto na preservação genética da espécie. “Essa iniciativa representa uma garantia de sobrevivência dessa genética, considerando que existem apenas 12 populações conhecidas de muriqui-do-norte no mundo”, ressaltou. Ele também destacou que ações como essa permitem reduzir os efeitos do isolamento populacional e ampliar a variabilidade genética dos grupos.
A médica veterinária do Ibama, Cecília Barreto, que acompanhou a operação, enfatizou a complexidade do trabalho de campo e a importância da integração entre as equipes. Segundo ela, o sucesso da ação foi resultado da articulação entre diferentes instituições e do suporte logístico, incluindo apoio aéreo, que garantiu segurança e bem-estar aos animais durante todas as etapas, desde a captura até a chegada ao novo habitat.
Considerado o maior primata das Américas, o muriqui-do-norte é um importante símbolo da fauna da Mata Atlântica e exerce papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas, especialmente na dispersão de sementes e na manutenção da diversidade vegetal. A redução de suas populações ao longo das últimas décadas reforça a necessidade de ações coordenadas e contínuas para sua conservação.
Nesse contexto, a iniciativa reforça a importância de estratégias integradas que aliem conhecimento científico, gestão ambiental e cooperação entre instituições. Com a transferência dos indivíduos para uma área com melhores condições ecológicas e maior conectividade de habitat, a expectativa é ampliar as chances de sobrevivência e reprodução da espécie, contribuindo para a recomposição populacional do muriqui-do-norte e para a conservação da Mata Atlântica em Minas Gerais.
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